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Trivium · Guias técnicos · Critério DORI
CFTV · IEC 62676-4

A câmera gravou, mas a imagem não serve de prova

“Temos 64 câmeras em 4K e não deu para identificar ninguém.” Essa frase começa boa parte das conversas que temos sobre CFTV — e contém o mal-entendido que este guia existe para desfazer.

Resolução de câmera não é resolução de imagem no alvo

Uma câmera 4K tem 3.840 pixels na horizontal. Se ela enxerga uma faixa de 40 metros de largura, esses pixels se distribuem por 40 metros — sobram 96 pixels por metro. Se o rosto de uma pessoa ocupa 20 centímetros, ele foi registrado com cerca de 19 pixels de largura. Nenhum software, nenhum enhance de série de TV, recupera informação que não foi capturada.

A mesma câmera, com uma lente que enxergue 8 metros de largura em vez de 40, entrega quase 500 pixels por metro — e o rosto vira identificável.

O que define se a imagem serve não é o sensor. É a densidade de pixels sobre o alvo.

O que a norma diz: os quatro níveis DORI

A IEC 62676-4Video surveillance systems for use in security applications: Application guidelines — padronizou essa conversa em quatro níveis de desempenho, conhecidos pela sigla DORI.

câmera I R O D Identificação 250 px/m Reconhecimento 125 px/m Observação 62 px/m Detecção 25 px/m distância crescente · densidade de pixels decrescente
Quanto mais longe do alvo, menos pixels sobram por metro. A função que a câmera consegue cumprir muda com a distância — não com o preço do equipamento.
NívelDensidade mínimaO que permite concluir
D — Detecção25 px/mHá alguém ali
O — Observação62 px/mO que a pessoa está fazendo, roupa, direção
R — Reconhecimento125 px/mÉ provavelmente aquela pessoa que eu já conheço
I — Identificação250 px/mÉ aquela pessoa, com segurança para sustentar uma afirmação

A diferença entre reconhecimento e identificação é a que costuma decidir um processo. Reconhecer é dizer “parece o funcionário do 4º andar”. Identificar é afirmar quem é, diante de quem vai contestar.

Uma imagem abaixo de 250 px/m no ponto onde o fato aconteceu dificilmente sustenta uma identificação contestada.

Como calcular, na prática

A conta tem duas linhas. Primeiro, a largura que a câmera enxerga na distância do alvo:

largura (m) = 2 × distância (m) × tan(ângulo horizontal ÷ 2)

densidade (px/m) = resolução horizontal (px) ÷ largura (m)

A mesma câmera, quatro projetos diferentes

Câmera Full HD, 1.920 px de resolução horizontal, alvo a 20 metros:

LenteLargura a 20 mDensidadeNível DORI
Grande angular, 90°40,0 m48 px/mDetecção
Padrão, 50°18,7 m103 px/mObservação
Teleobjetiva, 30°10,7 m179 px/mReconhecimento
Teleobjetiva, 15°5,3 m365 px/mIdentificação

Mesma câmera. Mesmo ponto. Mesmo investimento em equipamento. Quatro resultados completamente diferentes — e apenas o último serve de prova.

É por isso que “quantas câmeras?” é a pergunta errada para começar um projeto. A pergunta certa é “o que cada câmera precisa provar?”.

O que também derruba a imagem, mesmo com DORI correto

Acertar a densidade de pixels é necessário e não é suficiente. Quatro fatores destroem imagens que, no papel, estavam dimensionadas:

Contraluz na entrada

A câmera da portaria aponta para a porta de vidro. De dia, quem entra vira silhueta preta contra o fundo claro. Sem WDR real — faixa dinâmica suficiente, não a sigla no catálogo — a imagem não serve em nenhum nível.

Borrão de movimento

Densidade calculada para alvo parado não vale para alvo andando. A 1/30 s, uma pessoa a 1,4 m/s se desloca quase 5 cm durante a captura do quadro.

Compressão

Bitrate apertado para economizar armazenamento destrói justamente o detalhe fino do rosto — que é o que o codec considera descartável.

Iluminação e infravermelho

Alcance de IR de catálogo é medido em condições ideais. A 25 metros, o IR de muitas câmeras ilumina o suficiente para detecção, não para identificação.

Como se faz um projeto por função

O método que usamos inverte a ordem habitual:

O resultado prático: costuma-se chegar a menos câmeras, melhor posicionadas, com funções explícitas — em vez de muitas câmeras cobrindo tudo e provando nada.

Sobre LGPD, em uma nota

Câmera em área comum trata dado pessoal. As obrigações que aparecem com mais frequência: aviso visível de monitoramento, finalidade definida, prazo de retenção declarado e controle de quem acessa as gravações. Superdimensionar campo de visão “por garantia” aumenta a exposição sem aumentar a prova — o que é ruim nos dois lados da equação.

Como auditar o que você já tem, sem contratar ninguém

Pegue a planta do CFTV e responda, câmera por câmera, duas perguntas:

Se ninguém no prédio consegue responder a segunda pergunta para a câmera da portaria, esse é o diagnóstico.


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Equalização técnica de propostas: como comparar fornecedores sem surpresa na obra

O “similar” que atende metade da especificação é exatamente o tipo de desvio que derruba o DORI de um projeto inteiro.

Diagnóstico

Seu CFTV prova o que precisa provar?

A auditoria começa pela planta e pelas duas perguntas acima. Fazemos projeto e fiscalização de CFTV sem vínculo com fabricante — não vendemos câmera.

Falar com um engenheiro ou contato@trivium.eng.br · (11) 98626-0789
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